A brisa do Tejo entrava pela janela entreaberta do quarto, trazendo o cheiro de sal e de peixe grelhado dos restaurantes próximos. Eu estava deitada de lado, o lençol enrolado nas pernas, e sentia ainda o calor dele nas costas. Passaram-se quase quinze anos, mas basta fechar os olhos para o corpo recordar tudo.
Era o verão de 2008. Eu tinha vinte e quatro anos e trabalhava como assistente de bordo na TAP. A escala em Lisboa durava trinta e seis horas, tempo suficiente para dormir, passear e esquecer o uniforme. O hotel ficava no Chiado, um edifício antigo com azulejos azuis nas paredes do hall. Desci para o pequeno-almoço atrasada, o cabelo ainda molhado do duche. Foi aí que o vi.
Ele estava sentado sozinho numa mesa junto à janela, a ler o jornal. Cabelo escuro, barba de dois dias, camisa branca com as mangas arregaçadas. Quando levantou os olhos e me viu, sorriu como se já me conhecesse. Chamei-me Clara. Ele disse que se chamava Miguel e que era arquiteto, em Lisboa para um projeto de restauro no Bairro Alto. Conversámos sobre nada e tudo. O café arrefeceu nas chávenas. Quando me levantei para sair, ele tocou-me levemente no pulso.
— Se quiseres companhia para o almoço, estou livre depois das duas.
Não respondi logo. Apenas sorri e subi para o quarto. O coração batia mais depressa do que devia. Tomei outro duche, vesti um vestido leve de linho bege que deixava os ombros à mostra e desci novamente. Ele esperava-me no lobby, encostado ao balcão, as mãos nos bolsos. Saímos juntos para a rua quente de julho.
Caminhámos até ao Miradouro de São Pedro de Alcântara. O sol batia forte, o rio brilhava lá em baixo. Comprámos dois gelados de morango e sentámo-nos num banco de pedra. Ele falava devagar, com uma voz grave que me fazia arrepiar os braços. Contou-me que tinha acabado de sair de um casamento curto e doloroso. Eu contei-lhe que vivia entre aviões e que raramente dormia duas noites no mesmo país. Havia uma cumplicidade estranha, como se nos conhecêssemos há anos.
Depois do gelado, ele propôs que fôssemos até à Alfama. Subimos as escadas estreitas, parando em cada miradouro. O suor colava o vestido ao corpo. Ele tirou o lenço do bolso e limpou-me a testa com um gesto tão natural que me deixou sem ar. Quando chegámos à Praça do Império, o céu começava a escurecer. Parámos num pequeno restaurante de esquina. Vinho verde fresco, pão quente, azeitonas pretas. Rimos muito. Ele imitava os meus sotaques de passageiro irritado. Eu fingia que não reparava na forma como os seus olhos desciam pelo meu decote.
Quando saímos, a noite já tinha caído. As ruas estreitas estavam iluminadas por candeeiros antigos. Ele pegou na minha mão sem pedir licença. O toque era quente, firme. Não a soltei. Caminhámos em silêncio até ao hotel. No elevador, o ar parecia rarefeito. Olhávamo-nos sem falar. Quando a porta do meu quarto se fechou atrás de nós, ele encostou-me à parede e beijou-me como se tivesse esperado a vida inteira por aquele momento.
Os seus lábios eram exigentes, a língua explorava a minha boca com urgência. Senti as mãos dele subirem pelas minhas coxas, levantando o vestido. O tecido leve deslizou até à cintura. Ele ajoelhou-se devagar, beijando a pele exposta. Os meus dedos enterraram-se no cabelo dele. Quando a boca chegou ao centro da minha calcinha, soltei um gemido que me surpreendeu. Ele afastou o tecido com os dentes e lambeu-me devagar, saboreando cada gota da minha excitação. As minhas pernas tremiam. Apoiei-me na parede, a cabeça inclinada para trás, enquanto ele me devorava com paciência e fome.
Não sei como chegámos à cama. Lembro-me apenas de ele me despir completamente, de me deitar de costas e de continuar a explorar cada centímetro do meu corpo. A língua dele desenhava círculos lentos no meu clitóris, dois dedos entravam e saíam ritmadamente. Gozei pela primeira vez com um grito abafado contra a almofada. Ele subiu, beijou-me o pescoço, os seios, mordiscando os mamilos até eu arquear as costas.
— Quero-te dentro de mim — sussurrei, a voz rouca.
Ele sorriu contra a minha pele. Tirou a camisa, as calças. O corpo era magro e definido, a ereção impressionante. Colocou-se entre as minhas pernas, esfregando a glande húmida contra a minha entrada. Entrou devagar, centímetro a centímetro, deixando-me sentir cada veia, cada pulsação. Quando estava completamente dentro, parou. Olhámos um para o outro. Havia algo de profundo naquele olhar, uma espécie de reconhecimento silencioso.
Começámos a mover-nos. Primeiro lento, depois cada vez mais rápido. As minhas unhas arranhavam as costas dele. Ele segurava-me os pulsos acima da cabeça, penetrando-me com força. O som dos nossos corpos a baterem enchia o quarto. Virei-me, fiquei de quatro. Ele agarrou-me os cabelos, puxando a cabeça para trás enquanto me fodia com intensidade. Gozei outra vez, os músculos contraindo-se à volta dele. Ele não parou. Virou-me novamente, colocou as minhas pernas sobre os seus ombros e mergulhou mais fundo. O ângulo era perfeito. Senti o orgasmo dele chegar, o corpo tenso, um gemido rouco saindo da garganta enquanto se derramava dentro de mim.
Ficámos abraçados, suados, ofegantes. Ele traçava círculos preguiçosos nas minhas costas com os dedos. Adormeci assim, com a cabeça no peito dele e o som do coração a bater contra o meu ouvido.
Acordei com a luz cinzenta da madrugada. Ele não estava na cama. Por um segundo, o pânico apertou-me o peito. Depois ouvi o barulho do duche. Levantei-me nua, entrei na casa de banho. Ele estava debaixo do jato de água quente, os olhos fechados. Entrei também. Ele abriu os olhos, sorriu e puxou-me para si. Beijámo-nos enquanto a água caía sobre nós. Levantei uma perna, apoiei o pé na borda da banheira. Ele segurou-me pelas nádegas e entrou novamente, desta vez devagar, quase com reverência. Fizemos amor debaixo do duche até a água ficar fria.
Depois vestimo-nos em silêncio. Ele preparou dois cafés no quarto com a máquina pequena do hotel. Sentámo-nos na varanda minúscula, a olhar para os telhados de Lisboa. O sol nascia por trás da colina. Ele pegou na minha mão e beijou os nós dos dedos.
— Esta escala foi a melhor da minha vida — disse ele baixinho.
Eu sorri, mas não respondi. Sabia que o voo de regresso era às quatro da tarde. Sabia também que provavelmente nunca mais o veria. Terminámos o café. Ele vestiu o casaco, deu-me um último beijo longo e profundo e saiu sem olhar para trás.
Fiquei sozinha no quarto, o corpo dorido, o cheiro dele ainda na pele. Tomei outro duche, arrumei a mala, vesti o uniforme. Quando o avião descolou, olhei pela janela e vi a cidade a afastar-se. Uma lágrima solitária correu pelo meu rosto. Não era tristeza. Era gratidão por aquela noite que o tempo nunca conseguiu apagar.
Hoje, sempre que o avião aterra em Lisboa, sinto um aperto no peito. Caminho pelos mesmos bairros, sento-me nos mesmos miradouros. Às vezes, penso que o vou encontrar dobrando uma esquina, com o mesmo sorriso e as mesmas mãos quentes. Nunca aconteceu. Mas o corpo ainda se lembra. E, nas noites mais quentes de verão, quando fecho os olhos, consigo sentir o sabor do vinho verde, o cheiro do Tejo e o toque dele na minha pele, como se tivesse sido ontem.